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Erivam Morais de Oliveira

Da verdadeira fotografia de Lewis Hine: As mentirosas manipulações do fotojornalismo atual

Erivam Morais de Oliveira
Faculdade Cásper Líbero

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     Última modificação: Sunday, 30 de September de 2007

Resumo
Um século após a profética frase - “Embora às fotografias não possam mentir, os mentirosos podem fotografar”, proferida por Lewis Hine, fotógrafo americano que denunciou a exploração do trabalho infantil em seu país, o conteúdo dessa afirmação está presente no dia-a-dia do fotojornalismo.
Os acontecimentos recentes, envolvendo imagens manipuladas e adulteradas, revelam o sério problema que a falta de ética e escrúpulos podem acarretar na veracidade das informações jornalísticas, descaracterizando o contexto real da imagem, tornando-as mais atraentes e sedutoras ao público leitor. Como exemplo, o caso das imagens realizadas pelo fotógrafo Brian Walski do jornal americano Los Angeles Times, que mostra um fuzil apontado para um pai com uma criança no Iraque, resultado de manipulação em programa de tratamento de imagem, ou ainda, das fotografias do bombardeio de Beirute, no Líbano, produzida por Adnan Haij, fotógrafo da principal agência de notícias britânica, onde a fumaça da imagem original é ampliada.
As edições, cortes e seleções sempre ocorreram nos meios jornalísticos, inclusive as montagens, essas mais raras, mas nunca com tanta freqüência como agora. Esses fatos devem servir de alerta para que o respeito aos leitores e fotografados sejam preservados, pois com avanço tecnológico, essa prática torna-se mais fácil e comum, podendo interferir na credibilidade, destruindo a memória do fotojornalismo.
Sempre é bom lembrar que o material fotografado para uma publicação, além de passar pela edição do fotógrafo, passa também pela edição do editor de fotografia, que seleciona as imagens que julga mais adequada a linha editorial do veículo. Muitos desses editores selecionam poucas fotografias para compor o banco de imagens de seus arquivos, apagando as excedentes, por falta de espaço para armazenamento desse material. O excesso de edição nas imagens, que começa com o fotógrafo em campo e termina no editor, preocupa a todos que usam a fotografia como ferramenta de pesquisa e documentação.
Devemos nos preocupar também, com a questão do incentivo ao envio de imagens aos jornais e revistas, por leitores, que sendo amadores, não tem o comprometimento jornalístico dos fatos. Podem manipular a imagem para facilitar sua publicação, já que os veículos de comunicação não garantem a publicação do material recebido, mas sorrateiramente exige do leitor o compromisso de exclusividade, evitando dessa forma que esse material possa chegar a seu concorrente, obrigando dessa forma, o leitor a ficar preso a linha editorial cada vez mais medíocre e sem compromisso com a verdade.
O leitor por sua vez, além da exclusividade, acaba sendo obrigado a ceder os direitos autorais ao veiculo, e muitos acabam caindo nessa arapuca montada pelos jornais, por causa da facilidade que tem em produzir imagens por causa do avanço tecnológico e o barateamento dos equipamentos.
Portanto, faz-se necessário discutir o papel do fotojornalista a partir do surgimento da fotografia digital e a regulamentação do recebimento de imagens pelos veículos de comunicação, uma vez que o acesso ao equipamento digital, se torna cada dia mais comum em aparelhos celulares e agendas de bolso com câmeras fotográficas acopladas, com ótimas resoluções para captura de imagem. Basta, nesse caso ao amador, a regulagem correta de resolução compatível com as publicações, para que qualquer cidadão possa veicular seu material em noticiário escrito e televisivo, provocando uma falsa revolução no jornalismo. Casos assim ocorreram recentemente no atentado terrorista de Madri, terremoto na Ásia e recentemente no acidente de avião da TAM em São Paulo, onde imagens produzidas por amadores ou leitores, chagaram as redações e consequentemente publicadas, muitas vezes sendo questionadas por pessoas diretamente ligadas aos fatos.
O desrespeito as Leis e as Instituições no Brasil parecem não ter fim, basta observar a denúncia publicada no portal da Arfoc-SP – Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado de São Paulo , onde é questionada a fotografia produzida pelo repórter fotográfico Maurício Lima para a agência de notícias France Press e publicada na edição do jornal O Globo em 15 de setembro de 2007, onde a imagem foi altera prejudicando o contexto da informação.
Segundo Rubens Chiri, presidente da Aforc, além do fato ferir a Lei de Imprensa, número 5.250 de 09 de fevereiro de 1967, que prevê em seu artigo 65, que: “As empresas estrangeiras autorizadas a funcionar no País não poderão distribuir notícias nacionais em qualquer parte do território brasileiro, sob pena de cancelamento da autorização por ato do Ministro da Justiça e Negócios Interiores”. O Jornal o Globo cometeu dois erros lamentáveis: O primeiro por descontextualizar a imagem dando a ela outra interpretação e o segundo, por violar uma lei de imprensa federal (Out Brazil) que impede a utilização de fotografias produzidas no Brasil pelas agências de notícias internacionais. Certamente, se a lei Out Brazil fosse cumprida, o primeiro problema não teria sido ocasionado, pelo menos com a foto de Maurício Lima.
Na foto original, Maurício retratou uma cena composta por três pessoas. Já na edição de O Globo, aparece apenas um dos operadores da bolsa, isoladamente. Em outra oportunidade, segundo Maurício, ocorreu o mesmo problema de edição de foto em O Globo. O profissional que já havia sido informado que, em havendo reincidência, perderia o direito de fotografar na BM&F, recebeu um telefonema de um assistente do diretor de comunicação informando-o de que estaria proibido de atuar dentro da BM&F, por causa das fotos publicadas.
Posteriormente o mal entendido foi desfeito e a BM&F reconheceu que o problema não partiu do repórter fotográfico e sim da edição da foto em O Globo, que retalhou a foto tirando completamente o sentido original da fotografia.
Embora a Lei determine que as agências não possam distribuir material produzido no Brasil a veículos brasileiros, a mesma Lei não prevê qualquer tipo de punição aos infratores, contribuindo dessa forma para o descumprimento da Lei e favorecendo a utilização de imagens, constantemente, pelos veículos de comunicação brasileiros.
Para o fotojornalista Ari Vicentini, especialista em direito autoral. “A lista de truques, encenações e manipulações na história do fotojornalismo são tão grandes e tão antigas que já, em 1938, a National Press Photografers dos Estados Unidos, lançou um manifesto exigindo compromisso ético de credibilidade de seus associados. Historicamente, a manipulação fotográfica é muito mais analógica que digital”.
Mas essa lógica deverá ser superada nos próximos anos, pois a facilidade em alterar uma imagem com os programas de tratamento de imagens é bem superior. Vicentini relembra alguns paradigmas que poderão ajudar a entender a preocupação com a manipulação. “Discorrer sobre a possibilidade de se permitir o uso de manipulações em fotografias jornalísticas soa como heresia, mas a questão não pode ser tratada sob a retórica fundamentalista da não manipulação a qualquer preço, muito menos por uma adoção total da cartilha da imagem digital”.

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