Coordenação:
Gerson Martins
Relatoria: Rogério Christofoletti
29 de Abril
A professora Nanami
Sato, da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero
(SP), apresentou um trabalho do Centro Interdisciplinar de Pesquisa da sua instituição
que abordava aspectos narrativos de reportagens na revista Realidade. A pesquisadora
fez questão de mencionar que não tem formação jornalística,
mas seu trabalho recorre a uma condição particular pessoal: ter
sido assídua leitora da revista. Inicialmente, Nanami Sato fez um resgate
histórico da publicação, destacando um caráter recorrente
nas reportagens ali publicadas: a preocupação com a narrativização
das matérias. De acordo com a pesquisadora, a revista mantinha um evidente
cuidado e apuro literário na confecção e edição
de seus textos. Narrativização e alegoria não representam
uma tensão nestes textos, mas complementam-se a serviço da informação.
Em seguida, a jornalista Silvana Copetti Dalmasso, da Universidade Federal de
Santa Maria (UFSM-RS) apresentou os resultados de uma pesquisa realizada entre
julho e agosto de 2001. No trabalho, a pesquisadora debruçou-se sobre
as edições do jornal A Razão, de Santa Maria, para verificar
a natureza, constância e origem das fontes de informação
expressas nas matérias. Como hipóteses iniciais, apontou que o
jornal se apóia em fontes oficiais e que os anônimos são
desprezados, mesmo quando o assunto tem maior abrangência. Entre 15 de
julho e 4 de agosto, Silvana Dalmasso observou que entre 238 matérias
analisadas, em apenas 26 delas o cidadão comum era ouvido ou consultado.
Desta forma, mais de 90% do corpus trazia informações de fontes
oficiais. Entre o observado, 66 notícias sequer traziam qualquer menção
ou identificação de fontes. Tais resultados fizeram com que a
pesquisadora concluísse que o jornal geralmente ouve as fontes oficiais,
prejudicando a polifonia e a pluralidade de versões no noticiário.
Esta investigação motivou a mesma pesquisadora a desenvolver outro
trabalho, que acabou resultando em sua monografia de final de curso. Nele, intitulado
A natureza polifônica da linguagem - uma alternativa para o jornalismo
- quis aprofundar questões mais conceituais referentes às vozes
ouvidas nas matérias. Como referencial teórico, a jornalista se
apoiou nos estudos de Mikhail Bakhtin sobre a polifonia. Noções
como monologismo e dialogismo foram explicitadas e articuladas à produção
jornalística.
A quarta apresentação da tarde também trouxe resultados
de uma monografia de conclusão de curso. Em A percepção
de jornalistas e pesquisadores sobre a divulgação da ciência
na mídia impressa: análise do caso aftosa, Sâmia de
Christo Garcia (UFSM) entrevistou jornalistas e cientistas e analisou reportagens
dos jornais A Razão e Zero Hora, cruzando as percepções
dos dois tipos de profissionais acerca do tratamento que a mídia deu
à reincidência da febre aftosa no Rio Grande do Sul. Como resultados,
o trabalhou apontou que há percepções diferenciadas de
lado a lado, tanto sobre o tratamento sensacionalista quanto sobre a adequação
da linguagem, passando ainda pela forma de abordagem e pelo uso de estatísticas.
Em seguida, a jornalista Fabiana Hundertmarck Leal (UFSM) apresentou alguns
dos resultados colhidos em sua pesquisa sobre a democratização
do conhecimento através da entrevista radiojornalística. Nele,
procurou verificar se no ambiente do rádio o entrevistado especialista
abdicava (ou não) da linguagem científica para socializar o conhecimento
e a informação. A pesquisadora apelou para diversos especialistas
de áreas distintas para observar este comportamento e o seu recurso à
linguagem coloquial. Concluiu que o uso do jargão científico se
constitui num obstáculo ao fluxo de informação, ao passo
que o coloquialismo transmite segurança, proximidade com o público
e gera identificação entre o ouvinte e a fonte.
A sexta apresentação da tarde contou como se pode inseminar de
criatividade o trabalho jornalístico. A jornalista Maura Oliveira Martins
relatou sua experiência na elaboração da grande reportagem
Casa de Todos os Santos, produzida como trabalho de conclusão
de curso na UFSM em abril deste ano. A reportagem enfocou o universo da umbanda
e, tecnicamente, tentou recuperar alguns aspectos do New Journalism como a reprodução
textual de diálogos entre as fontes, a narrativa quadro a quadro e a
observação participante. Segundo a pesquisadora, o trabalho acaba
mostrando que é possível trabalhar com criatividade na mídia
impressa contemporânea se se recorrer a estes conceitos e técnicas.
O jornalista Alexandre Rossato Augusti, da UFSM, apresentou no final da tarde
uma síntese de sua pesquisa Ética e assistencialismo: uma
análise de práticas jornalísticas. A investigação
é um estudo de caso sobre o programa radiofônico de João
Carlos Maciel, produto marcado pelo gênero popularesco, por práticas
assistencialistas e que acaba lançando luzes sobre discussões
éticas no processo comunicativo. O pesquisador fez uma profunda revisão
bibliográfica sobre o tema, analisando o programa e confrontando com
as razões do apresentador, em entrevista concedida ao autor.
Na mesma linha, Michele Negrini fez uma avaliação do programa
Linha Direta, centrando sua análise nos aspectos da propagação
da violência e no uso de técnicas da teledramaturgia como elemento
constituinte do gênero jornalístico policial. A pesquisadora realizou
o trabalho motivada por questões como: Quais são os limites de
ação dos meios de comunicação? Os veículos
podem fazer o que fazem? Michele Negrini enfatizou a preocupação
da transcendência da atuação do jornalismo contemporâneo
e traçou considerações acerca dos perigos desta tendência.
Para o estudo de caso, analisou edição de 2 de agosto de 2001
e constatou que o programa é um misto de jornalismo e teledramaturgia,
que tanto ajuda na propagação da violência como para a sua
banalização, que apela para práticas sensacionalistas e
se marca por diversos desvios éticos, como a superexposição
de imagem dos acusados e o incentivo à delação institucionalizada.
Para a pesquisadora, o programa Linha Direta não atua na democratização
da informação e da justiça, mas sua ação
é orientada para a difusão do entretenimento e do sensacionalismo.
Fechando as apresentações da tarde, o professor Rogério
Christofoletti, da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI-SC) mostrou
uma experiência que vem desenvolvendo em seu curso há nove meses:
trata-se do sítio Monitor de Mídia (http://www.cehcom.univali.br/monitordemidia),
voltado à avaliação e crítica dos três maiores
jornais catarinenses. O pesquisador informou que os trabalhos são executados
por professores e alunos do curso e que o sítio disponibiliza diagnósticos
quinzenais dos jornais, auxiliando a discussão e a crítica da
imprensa local.
30 de abril
O segundo dia de apresentações começou com a professora
Cristina Schmidt, da Universidade de Mogi das Cruzes, que falou do projeto Produtos
e Processos Midiáticos, que faz parte do projeto pedagógico do
curso, e se constitui em experiência de iniciação cientifica
feita logo no primeiro ano. Partindo de perspectivas inter, trans e multidisciplinar,
os executores propõem aos alunos a elaboração em equipe
de uma monografia. Os alunos passam por uma banca examinadora na metade do primeiro
ano para qualificação dos projetos. Um semestre depois, os estudantes
apresentam seus trabalhos num evento maior, sob avaliação da comunidade
acadêmica local. A professora relatou ainda o desenvolvimento de outros
projetos realizados pelos alunos ao longo do curso, seguindo uma trajetória
de formação intensa na área. O sistema se apóia
no entendimento que a formação se dá em quatro patamares:
ser, conhecer, exercer e escolher.
Em seguida, a jornalista Vanessa Tiede Weiler, da UFSM, relatou alguns dos resultados
que colheu em sua pesquisa Profissão: Jornalista. Representações
sociais dos alunos de Jornalismo da UFSM ao iniciar e concluir sua graduação.
A autora sustentou sua pesquisa na teoria das representações sociais,
desenvolvida no campo da Psicologia, e trabalhou com dois grupos de alunos para
ilustrar as representações de entrada e saída
do curso. A motivação inicial foi a própria experiência
da autora, cujas representações sociais se modificaram ao longo
do curso. Isso também se verificou na pesquisa, onde 75,6% dos consultados
reafirmaram esta ocorrência. Isto é, as representações
sociais acerca da profissão converteram-se no ambiente da formação
universitária.
O professor Ricardo Jorge de Lucena Lucas, da Universidade Federal do Ceará
(UFC) tratou da produção de monografias na área do jornalismo,
especificamente dos projetos de iniciação científica. Em
sua instituição, os trabalhos de conclusão de curso restringiam-se
exclusivamente a monografias, realidade que deve mudar com a implantação
de um projeto que amplia o leque de opções na direção
de trabalhos de natureza jornalística. O professor relatou algumas das
dúvidas, preocupações e dificuldades operacionais para
implantar o novo sistema, tais como normatização técnica
destes trabalhos e insuficiência infra-estrutural dos laboratórios.
A quarta apresentação da manhã foi feita pelo professor
Elias Machado, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que enfocou a pesquisa
aplicada como laboratório para a produção conceitual no
jornalismo digital. Numa sucinta revisão teórica, o professor
avaliou que a pesquisa na área evoluiu muito nos últimos anos,
mas fez uma observação: quase não se faz pesquisa aplicada
no campo do jornalismo. Para o expositor, é necessário que se
invertam as prioridades de pesquisa no país, tornando as práticas
e os laboratórios o ambiente de geração de novos trabalhos
e investigações. Aliado a isso, é preciso ainda que funcione
um sistema que denomina de complexo de inovação e produção
de conhecimento. Isto é, um conjunto articulado que reúna
escolas de comunicação, empresas jornalísticas e agências
de fomento. A imbricação destes agentes, segundo Elias Machado,
permite que se associe pesquisa científica de ponta e atendimento das
demandas sociais.
A professora Olga Maria Tavares, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(UFRN), abordou a experiência de instalação de uma base
de pesquisa na graduação naquela instituição. Esta
base se assenta sobre cinco linhas de pesquisa: Jornalismo no Rio Grande do
Norte - que se preocupa com um inventário histórico da comunicação
naquele estado -, Comunicação Audiovisual no RN - que centra seu
foco nos meios eletrônicos e na integração deles -, Comunicação
e Cultura - que explora aspectos como meio ambiente, cidadania e produção
cultural no universo comunicacional -, Comunicação e semiótica
- que se aprofunda nos processos de significação e de leitura
de sentidos - e Teorias da Comunicação - voltada à epistemologia
e ao criticismo, entre outras áreas afins. Esta base de pesquisa foi
aprovada junto à Reitoria da UFRN e cadastrada junto ao CNPq, informou
a professora.
A sexta apresentação da manhã foi feita pela professora
Virgínia da Silveira Fonseca, da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS), enfocando o papel da teoria na formação dos jornalistas,
o que revela alguns desafios na graduação dos cursos. A professora
relata a experiência local, onde duas características compõem
um quadro conflituoso: 1) quase a totalidade do alunado já está
integrada ao mercado de trabalho a partir do 5º semestre. 2) a natureza
do trabalho de conclusão de curso é exclusivamente monográfica,
teórica, por força da normatização institucional.
Estes aspectos fazem com que haja um confronto de visões (prática
X teoria), o que provoca a resistência do alunado à formação
oferecida e a fragilidade do curso. A expositora realçou questões
que aprofundam esta relação dificultosa, como uma ambivalência
da natureza dos cursos de Jornalismo no Brasil - que confunde a professores
e alunos - e os movimentos recentes que agudizam a problemática da desregulamentação
profissional no país.
O professor Francisco José Karam, da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC) apresentou as bases de um projeto de pesquisa centrado na Ética
e Deontologia no Jornalismo Contemporâneo. A iniciativa foi aprovada junto
ao PIBIC/UFSC e tem como bolsista a acadêmica Jeanne Callegari da Silva,
que trabalha em três vertentes: a leitura e revisão bibliográfica
da área, mapeamento de convergências de aspectos nos códigos
deontológicos e confronto do substrato teórico com casos concretos.
O professor frisou a importância de se produzir pesquisas específicas
sobre a ética no jornalismo, porque há questionamentos, dilemas
e dimensões moral-éticas exclusivas desta atividade profissional.
O projeto de pesquisa apresentado aprofunda esta preocupação e
fertiliza a produção científica neste campo.
Encerrando os trabalhos do GT, o professor Luiz Custódio da Silva relatou
a experiência do projeto A imprensa paraibana e a problemática
das secas nordestinas, onde trabalhou com três bolsistas. Em andamento,
a pesquisa já realizou revisão e discussão teórica
e o levantamento quantitativo de matérias abordando o tema nos cinco
jornais paraibanos. Neste segmento, foram contabilizadas mais de duas mil unidades
informativas (notícias, reportagens, etc.), que foram classificadas em
diversas categorias de definição, como secas, racionamento
da água, denúncias e irregularidades, entre
outros. Os bolsistas devem ainda entrevistar repórteres e editores que
cobriram o assunto em 1999 para contrapor à análise dos produtos
jornalísticos. Numa primeira avaliação dos dados, o projeto
observou uma evidente prevalência do enfoque institucional nos jornais,
frisando a preocupação dos governos locais, as ações
das autoridades políticas, a dimensão da seca no contexto político.
Ao passo que isso acontece, a pesquisa observa que são raras as matérias
aprofundadas e contextualizadoras, bem como a que expõem perfis dos atingidos
pela seca, e que os especialistas são pouco acionados pela imprensa neste
tipo de cobertura.
Os participantes do GT fizeram uma avaliação positiva dos trabalhos,
ressaltando o ambiente de troca de experiências e a riqueza de iniciativas
no campo da pesquisa no país. De acordo com alguns, o grande crescimento
do Fórum de Professores de Jornalismo se deve a discussões e diálogos
que se tecem nestas ocasiões. Para outros, a articulação
entre a exibição das experiências pelos professores com
a participação de alunos recém-formados foi ressaltada
como uma enriquecedora e fundamental iniciativa para o desenvolvimento do ambiente
do Fórum.