TEORIA EM CENA
O maior desafio
para os professores de telejornalismo e de outras disciplinas específicas
e laboratoriais é oportunizar aos alunos a prática, para que haja
o domínio de linguagens e suas possibilidades, e ao mesmo tempo provocar
discussões subsidiadas em textos teóricos e críticos sobre
a atuação dos veículos e dos jornalistas. Além disso,
o ideal dos professores que acreditam no potencial experimental, crítico
e criativo do ambiente universitário, é possibilitar que os futuros
jornalistas façam um telejornalismo diferente, que contextualize os fatos
e trate-os com mais profundidade, sem padronizar repórteres e entrevistados,
compreendendo o jornalista como produtor de conhecimento e não apenas
como relator de acontecimentos.
Encontrar o método que leve as aulas de telejornalismo a caminhar mais
próximas deste ideal é parte de um processo de constantes experimentações.
Os maiores desafios neste caminho são as limitações impostas
pela estrutura física e curricular dos cursos de jornalismo e pelas próprias
características do jornalismo de televisão. O curto tempo dedicado
à realização das aulas de telejornalismo, o insuficiente
número de equipamentos e as dificuldades para o deslocamento das equipes
de reportagem permitem poucas experiências efetivas durante a disciplina,
na maioria das vezes procura-se reverter esta situação com produções
extra-curriculares ou vinculadas a projetos institucionais. De uma forma ou
de outra os cursos e seus professores encontram saídas criativas que
possibilitem a prática.
Neste contexto as disciplinas laboratoriais são percebidas, pelos alunos
e corpo docente, como práticas desprovidas de discussões mais
reflexivas e teóricas, afinal o tempo é curto demais para devaneios.
Compreender e exercer o jornalismo de televisão em suas várias
frentes (reportagem, edição, apresentação, produção)
implica em dedicar praticamente a totalidade da carga horária para a
conceituação téorica , atividades práticas e análises
das produções desenvolvidas na disciplina. A produção
de telejornais, por exemplo, é uma constante em grande parte dos cursos
de jornalismo. Os acadêmicos, futuros jornalistas, aprendem a reproduzir
o padrão existente. Certamente é preciso conhecer e dominar os
formatos utilizados para sugerir novos, o problema é que muito pouco
tempo é destinado a esse processo. Cheios de idéias, os alunos
acabam frustrados ao ter que, na universidade, restringir sua capacidade criativa
aos padrões que lhe serão impostos no mercado de trabalho. Neste
caso, a academia estaria cumprindo com o objetivo de preparar os
profissionais para serem absorvidos pelas emissoras de televisão,
para assumirem o papel de jornalistas. Apenas isto.
Percebe-se a necessidade de abrir espaços nas disciplinas de telejornalismo
para a discussão teórica e para a proposição de
novas linguagens, de novos programas. Algumas instituições têm
demonstrado esta capacidade, mas a exceção está longe de
ser a regra, afinal, os cursos de jornalismo continuam a reboque do mercado.
A universidade, através dos cursos de jornalismo e de seus laboratórios,
deve definitivamente assumir o papel de fomentar, de elaborar e inserir no mercado
novos conceitos e formatos . Além de refletir e debater, pesquisar e
propor.
Há muito tempo, desde o surgimento das escolas de jornalismo, a discussão
permanece na dicotomia entre teoria e prática. É necessário
avançar no caminho que aponta para a sintonia, teoria e prática
devem ser conciliadas, ou melhor, não há como separá-las
e a trajetória acadêmica tem mostrado isto ao propor nas grades
curriculares diversas possibilidades de aplicação teórica.
Certamente isto não põe fim ao debate, que deve ser contínuo,
mas não pode impedir a legitimação do ensino superior,
que deve ser capaz de enfrentar desafios e propor caminhos ao mercado.
Seminário
Sobre a Televisão vira programa de TV
Nas aulas de telejornalismo na Unoesc-Chapecó encontramos uma maneira
de vencer parte do desafio, pelo menos ao que se refere às discussões
teóricas, elas passaram a ser também pauta para programas de TV.
No semestre passado o polêmico livro de Pierre Bourdieu, "Sobre a
Televisão", depois de ser amplamente discutido em sala, foi tema
de um programa de entrevista. Cada aluno pensou um projeto e escreveu um roteiro,
depois, coletivamente, elaborou-se o definitivo. Foram convidados professores
e profissionais da área para o debate frente às câmeras,
situação especialmente criticada por Bourdieu. Para elaborar o
roteiro, produzir, apresentar e dirigir o programa os acadêmicos tiveram
que compreender o pensamento de Bourdieu e de outros autores para possibilitar
o debate coerente.
O seminário poderia ter sido realizado em sala, mas ainda assim a realidade
ficaria um pouco distante. Levar para o estúdio as reflexões de
Bourdieu e exibir na tela da TV as considerações do autor e dos
debatedores sobre o espelho de Narciso, por exemplo, permitiu uma interessante
análise. As limitações impostas pelo tempo foram discutidas
em tempo limite, mas foram abordadas, e na hipótese de veiculação
do programa seriam socializadas. Aliás, como o foram quando o autor expôs
o tema em um programa de televisão, através do serviço
audiovisual do Collége de France. Em outra perspectiva, contrária
a de Bourdieu, um programa de TV possibilitaria, pelo menos no Brasil, que pessoas
sem acesso ao livro conhecessem o pensamento do autor e algumas passassem a
perceber a televisão de forma diferenciada.
Segundo o próprio Bourdieu ( 1997, p.18):
Com a televisão , estamos diante de um instrumento que, teoricamente, possibilita atingir todo mundo. Daí certo número de questões prévias: o que tenho a dizer está destinado a atingir todo mundo? Estou disposto a fazer de modo que meu discurso, por sua forma, possa ser entendido por todo mundo? Será que ele merece ser entendido por todo mundo? Pode-se mesmo ir mais longe: ele deve ser entendido por todo mundo ? (....) Sempre me esforcei por passar minhas aceitações ou minhas recusas pelos crivos destas interrogações prévias. E desejaria que todos aqueles que são convidados a ir à televisão as fizessem a si mesmos ou que fossem pouco a pouco obrigados a fazê-las porque os telespectadores, os críticos de televisão, as fazem a si próprios e as fazem a propósito de suas aparições na televisão: ele tem algo a dizer? Está em condições de poder dizê-lo? O que ele diz merece ser dito nesse lugar? Em uma palavra, que faz ele ali?
O programa permitiu
buscar respostas a estes questionamentos, começando pela indagação
mais simples: é impossível dizer muita coisa na televisão?
As respostas afirmativas são categóricas, embora não absolutas.
O próprio formato dos programas de debate, (duas turmas elaboraram programas
diferentes abordando o mesmo tema) propostos e produzidos na atividade de sala,
apontam para possibilidades importantes no sentido de pelo menos se dizer mais
na televisão. Em uma análise apocalíptica, generalizadora,
o melhor a fazer é desligar a televisão e assumir a cômoda
postura crítica, o que em pouco contribuirá para qualificar a
programação. O papel dos professores de jornalismo, neste sentido,
é provocar a discussão e trazer para a sala, ou melhor, para o
estúdio e consequentemente para a tela da TV, os mais diferentes conceitos,
críticas e idéias referentes à televisão.
Esta proposta possibilita aos alunos o desempenho de atividades inerentes à
produção de um programa jornalístico em televisão,
mais, desencadeia o processo criativo, sendo possível a proposição
de novos espaços e formatos. Os programas Tela Crítica
e Televisão em OFF foram criados a partir de discussões
coletivas, o livro Sobre a Televisão de Bourdieu seria o tema do primeiro
de uma série de programas que traria para o debate profissionais de diversas
áreas. O projeto prevê a exibição do programa em
TVs comunitárias, educaticas, universitárias e em escolas, atráves
de circuitos de TV. Desta forma os futuros jornalistas também se comprometem
com a ponta, o telespectador, e uma das maneiras de firmar este compromisso
é com a formação de receptores mais críticos , afinal
eles podem definitivamente mudar o padrão da TV Brasileira se passarem
a exigir qualidade e respeito.
Esta foi a primeira experiência destes alunos com entrevistas em estúdio,
o que justifica algumas falhas e inseguranças, mas a avaliação
da produção foi extremamente positiva. O programa pôde ser
analisado em todos os sentidos, quanto à qualidade jornalística,
técnica e de conteúdo. A opinião dos entrevistados e a
própria dinâmica do programa frente aos argumentos de Bourdieu
renderam importantes discussões. A idéia agora é dar continuidade
ao projeto com a produção de novos programas, com novas turmas
e outros autores.