GT PRODUÇÃO LABORATORIAL
Relatora: PROFª ILKA GOLDSCHMIDT VITORINO
UNOESC-CHAPECÓ

2002/1

TEORIA EM CENA

O maior desafio para os professores de telejornalismo e de outras disciplinas específicas e laboratoriais é oportunizar aos alunos a prática, para que haja o domínio de linguagens e suas possibilidades, e ao mesmo tempo provocar discussões subsidiadas em textos teóricos e críticos sobre a atuação dos veículos e dos jornalistas. Além disso, o ideal dos professores que acreditam no potencial experimental, crítico e criativo do ambiente universitário, é possibilitar que os futuros jornalistas façam um telejornalismo diferente, que contextualize os fatos e trate-os com mais profundidade, sem padronizar repórteres e entrevistados, compreendendo o jornalista como produtor de conhecimento e não apenas como relator de acontecimentos.
Encontrar o método que leve as aulas de telejornalismo a caminhar mais próximas deste ideal é parte de um processo de constantes experimentações. Os maiores desafios neste caminho são as limitações impostas pela estrutura física e curricular dos cursos de jornalismo e pelas próprias características do jornalismo de televisão. O curto tempo dedicado à realização das aulas de telejornalismo, o insuficiente número de equipamentos e as dificuldades para o deslocamento das equipes de reportagem permitem poucas experiências efetivas durante a disciplina, na maioria das vezes procura-se reverter esta situação com produções extra-curriculares ou vinculadas a projetos institucionais. De uma forma ou de outra os cursos e seus professores encontram saídas criativas que possibilitem a prática.
Neste contexto as disciplinas laboratoriais são percebidas, pelos alunos e corpo docente, como práticas desprovidas de discussões mais reflexivas e teóricas, afinal o tempo é curto demais para “devaneios”. Compreender e exercer o jornalismo de televisão em suas várias frentes (reportagem, edição, apresentação, produção) implica em dedicar praticamente a totalidade da carga horária para a conceituação téorica , atividades práticas e análises das produções desenvolvidas na disciplina. A produção de telejornais, por exemplo, é uma constante em grande parte dos cursos de jornalismo. Os acadêmicos, futuros jornalistas, aprendem a reproduzir o padrão existente. Certamente é preciso conhecer e dominar os formatos utilizados para sugerir novos, o problema é que muito pouco tempo é destinado a esse processo. Cheios de idéias, os alunos acabam frustrados ao ter que, na universidade, restringir sua capacidade criativa aos padrões que lhe serão impostos no mercado de trabalho. Neste caso, a academia estaria cumprindo com o objetivo de “preparar” os profissionais para serem “absorvidos” pelas emissoras de televisão, para assumirem o papel de jornalistas. Apenas isto.
Percebe-se a necessidade de abrir espaços nas disciplinas de telejornalismo para a discussão teórica e para a proposição de novas linguagens, de novos programas. Algumas instituições têm demonstrado esta capacidade, mas a exceção está longe de ser a regra, afinal, os cursos de jornalismo continuam a reboque do mercado. A universidade, através dos cursos de jornalismo e de seus laboratórios, deve definitivamente assumir o papel de fomentar, de elaborar e inserir no mercado novos conceitos e formatos . Além de refletir e debater, pesquisar e propor.
Há muito tempo, desde o surgimento das escolas de jornalismo, a discussão permanece na dicotomia entre teoria e prática. É necessário avançar no caminho que aponta para a sintonia, teoria e prática devem ser conciliadas, ou melhor, não há como separá-las e a trajetória acadêmica tem mostrado isto ao propor nas grades curriculares diversas possibilidades de aplicação teórica. Certamente isto não põe fim ao debate, que deve ser contínuo, mas não pode impedir a legitimação do ensino superior, que deve ser capaz de enfrentar desafios e propor caminhos ao mercado.

Seminário Sobre a Televisão vira programa de TV
Nas aulas de telejornalismo na Unoesc-Chapecó encontramos uma maneira de vencer parte do desafio, pelo menos ao que se refere às discussões teóricas, elas passaram a ser também pauta para programas de TV. No semestre passado o polêmico livro de Pierre Bourdieu, "Sobre a Televisão", depois de ser amplamente discutido em sala, foi tema de um programa de entrevista. Cada aluno pensou um projeto e escreveu um roteiro, depois, coletivamente, elaborou-se o definitivo. Foram convidados professores e profissionais da área para o debate frente às câmeras, situação especialmente criticada por Bourdieu. Para elaborar o roteiro, produzir, apresentar e dirigir o programa os acadêmicos tiveram que compreender o pensamento de Bourdieu e de outros autores para possibilitar o debate coerente.
O seminário poderia ter sido realizado em sala, mas ainda assim a realidade ficaria um pouco distante. Levar para o estúdio as reflexões de Bourdieu e exibir na tela da TV as considerações do autor e dos debatedores sobre o espelho de Narciso, por exemplo, permitiu uma interessante análise. As limitações impostas pelo tempo foram discutidas em tempo limite, mas foram abordadas, e na hipótese de veiculação do programa seriam socializadas. Aliás, como o foram quando o autor expôs o tema em um programa de televisão, através do serviço audiovisual do Collége de France. Em outra perspectiva, contrária a de Bourdieu, um programa de TV possibilitaria, pelo menos no Brasil, que pessoas sem acesso ao livro conhecessem o pensamento do autor e algumas passassem a perceber a televisão de forma diferenciada.
Segundo o próprio Bourdieu ( 1997, p.18):

Com a televisão , estamos diante de um instrumento que, teoricamente, possibilita atingir todo mundo. Daí certo número de questões prévias: o que tenho a dizer está destinado a atingir todo mundo? Estou disposto a fazer de modo que meu discurso, por sua forma, possa ser entendido por todo mundo? Será que ele merece ser entendido por todo mundo? Pode-se mesmo ir mais longe: ele deve ser entendido por todo mundo ? (....) Sempre me esforcei por passar minhas aceitações ou minhas recusas pelos crivos destas interrogações prévias. E desejaria que todos aqueles que são convidados a ir à televisão as fizessem a si mesmos ou que fossem pouco a pouco obrigados a fazê-las porque os telespectadores, os críticos de televisão, as fazem a si próprios e as fazem a propósito de suas aparições na televisão: ele tem algo a dizer? Está em condições de poder dizê-lo? O que ele diz merece ser dito nesse lugar? Em uma palavra, que faz ele ali?

O programa permitiu buscar respostas a estes questionamentos, começando pela indagação mais simples: é impossível dizer muita coisa na televisão? As respostas afirmativas são categóricas, embora não absolutas. O próprio formato dos programas de debate, (duas turmas elaboraram programas diferentes abordando o mesmo tema) propostos e produzidos na atividade de sala, apontam para possibilidades importantes no sentido de pelo menos se dizer mais na televisão. Em uma análise apocalíptica, generalizadora, o melhor a fazer é desligar a televisão e assumir a cômoda postura crítica, o que em pouco contribuirá para qualificar a programação. O papel dos professores de jornalismo, neste sentido, é provocar a discussão e trazer para a sala, ou melhor, para o estúdio e consequentemente para a tela da TV, os mais diferentes conceitos, críticas e idéias referentes à televisão.
Esta proposta possibilita aos alunos o desempenho de atividades inerentes à produção de um programa jornalístico em televisão, mais, desencadeia o processo criativo, sendo possível a proposição de novos espaços e formatos. Os programas “Tela Crítica” e “Televisão em OFF” foram criados a partir de discussões coletivas, o livro Sobre a Televisão de Bourdieu seria o tema do primeiro de uma série de programas que traria para o debate profissionais de diversas áreas. O projeto prevê a exibição do programa em TVs comunitárias, educaticas, universitárias e em escolas, atráves de circuitos de TV. Desta forma os futuros jornalistas também se comprometem com a ponta, o telespectador, e uma das maneiras de firmar este compromisso é com a formação de receptores mais críticos , afinal eles podem definitivamente mudar o padrão da TV Brasileira se passarem a exigir qualidade e respeito.
Esta foi a primeira experiência destes alunos com entrevistas em estúdio, o que justifica algumas falhas e inseguranças, mas a avaliação da produção foi extremamente positiva. O programa pôde ser analisado em todos os sentidos, quanto à qualidade jornalística, técnica e de conteúdo. A opinião dos entrevistados e a própria dinâmica do programa frente aos argumentos de Bourdieu renderam importantes discussões. A idéia agora é dar continuidade ao projeto com a produção de novos programas, com novas turmas e outros autores.

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